200 anos de Walt Whitman, o poeta libertário

Walt Whitman, poeta e jornalista norte-americano, nasceu em 31 de maio de 1819. Considerado o poeta dos ideais libertários da Revolução Americana – ocorrida uma geração antes de seu nascimento, em 1776 -, foi homossexual, denunciou o racismo, os horrores da Guerra Civil, defendeu a democracia e os direitos das mulheres, ideias expressas em seu livro Leaves of grass (Folhas da Relva), que introduziu o verso livre na poesia.

Fonte: Tornado

Whitman cantou a beleza de paisagens naturais dos Estados Unidos, como a ilha de Paumanok, as cachoeiras do Niágara, o rio Missouri, as savanas do sul e os bosques de Dakota, celebrou os touros e os búfalos, os gaviões, as estrelas e a chuva de verão, mas foi sobretudo o poeta da sociedade industrial, dos grandes centros urbanos e do homem moderno. Sua poesia é composta em geral por versos longos, de ritmo próximo ao da prosa, sem métrica ou rimas – o chamado verso livre, primeira revolução radical nas artes de versificação, que seria seguida pelo poema em prosa de Charles Baudelaire e pelo poema visual de Stéphane Mallarmé, pontos de partida da poesia contemporânea. Em seus versos, Whitman apresenta pequenas narrativas da vida cotidiana, usando a linguagem coloquial, em que os personagens são soldados, marinheiros, prostitutas, idosos, mendigos, refletindo uma ideia básica do poeta: a solidariedade. No poema A uma prostituta comum, por exemplo, ele escreve:

Tranquilize-se, fique à vontade comigo
– eu sou Walt Whitman,
Liberal e saudável como a Natureza!
Antes que o sol a rejeite,
Antes que as águas se neguem
A rebrilhar por você
Ou as folhagens a sussurrar por você,
Minhas palavras não se negarão
A rebrilhar e a sussurrar por você.
Garota minha, eu marco com você
Um encontro bem marcado,
E encarrego você
De fazer todos os preparativos
Para estar bem em forma
Ao encontrar-se comigo;
E encarrego você
De ser paciente e perfeita
até a hora de eu chegar. 
Até a hora, eu saúdo você
Com um olhar cheio de significados
Para você não se esquecer de mim.

A poesia de Whitman apresenta uma nova sensibilidade, baseada na compaixão pelos excluídos, no princípio de igualdade entre todos os seres humanos e no respeito à natureza, elementos que o aproximam da espiritualidade budista, do pacifismo, da ecologia e da filosofia transcendentalista de Emerson e Thoreau – este último, o criador da doutrina da desobediência civil. No poema Canto a Mim Mesmo, o poeta coloca em primeiro plano a expressão do subjetivismo e da individualidade, mas ao mesmo tempo constrói uma alegoria de seu ideal místico e visionário de unidade entre todos os seres:

Celebro a mim mesmo
e canto a mim mesmo;
e o que eu assumo vocês devem assumir
pois cada átomo que a mim pertence
também a vocês pertence.
(…)Minha língua, cada átomo
do meu sangue, se forma
deste chão, deste ar.

Em outra composição, intitulada Letreiros (Folhas soltas), Whitman escreve:

O próprio ser eu canto:
canto a pessoa em si, em separado
— embora use a palavra Democracia
e a expressão Massa.
Eu canto o Corpo
da cabeça aos pés;
nem só o cérebro
nem só a fisionomia
tem valor para a Musa
— digo que a Forma completa
é muito mais valiosa,
e tanto a Fêmea quanto o Macho
eu canto.
A Vida plena de paixão,
força e pulsão
preparada para as ações mais livres
com suas leis divinas
— o Homem Moderno
eu canto.

A democracia saudada por Whitman, porém, não se confunde com o regime político vigente nos Estados Unidos, ou em qualquer outro país, em sua época – ou na nossa; podemos entender essa palavra, talvez, como a metáfora de um ideal libertário de sociedade, ainda não atingido pela espécie humana. Sua visão utópica de uma nova sociedade pode ser comparada com a lírica militante do vate russo Vladimir Maiakovski, que em seus poemas saudou a Revolução Russa e o socialismo, mas também com a lírica visionária do inglês William Blake, que no século XVIII interpretou a Revolução Francesa como um evento ao mesmo tempo político e religioso, quase messiânico.

Em sua juventude, Whitman trabalhou como aprendiz de tipografia, no bairro do Brooklyn, em Nova York; depois, foi carpinteiro, impressor, professor, editor e jornalista. Entre 1863-1864, serviu em Washington como enfermeiro voluntário em hospitais militares, conhecendo os horrores da Guerra Civil. Regressou ao Brooklyn doente e com marcas de envelhecimento prematuro causadas pela experiência no conflito, que inspirou muitos de seus poemas, como na composição que presta homenagem aos jovens soldados de um regimento capturados em batalha e depois executados por ordem do comandante adversário porque recusaram a ordem de se ajoelharem:

Nenhum se quis sujeitar
à ordem de ajoelhar
alguns tentaram inutilmente correr
feito uns alucinados,
alguns ficaram inabaláveis em pé,
alguns poucos tombaram de uma vez
com tiros na fronte ou no coração,
ou mutilados e desfigurados
ainda cavando o chão,
vivos e mortos estirados juntos
(…)Às onze horas em ponto
começou a incineração dos corpos.
Eis aí a história do assassinato
dos quatrocentos e vinte homens moços.

Em outras composições, o poeta norte-americano denuncia a venda de africanos escravizados em praça pública, antecipando o brado abolicionista de Castro Alves e a lírica militante de Neruda, Brecht e Maiakovski:

Em leilão um corpo de homem!(…)Olhem bem estas pernas
vermelhas, pretas ou brancas,
trabalhadas em nervos e tendões:
deviam estar abertas
para que as pudessem ver.
Sentidos, os mais aguçados! Olhos
incendiados de vitalidade,
energia e boa disposição,
músculo em flocos no peito,
pescoço e espinha flexíveis,
pernas e braços do tamanho justo,
e lá dentro outras tantas maravilhas!

Todos estes poemas pertencem ao livro Leaves of Grass, ou Folhas da Relva, que Whitman publicou em 1855, aos 36 anos de idade, custeando a impressão de seu próprio bolso. A primeira edição do livro não apresentava o nome do autor na capa e continha apenas 12 poemas e um prefácio. Ao longo de sua vida, Whitman publicou oito diferentes edições do livro, já com o crédito de autoria e sempre com o acréscimo de novos textos. A segunda edição era composta por 32 poemas, intitulados e numerados, incluindo seu poema mais conhecido, Canto a Mim Mesmo, que na época foi publicado com outro título, Poema de Walt Whitman, um americano. A edição final do livro, de 1892, contava quase 400 poemas. O livro revolucionou a poesia da época pela temática e inovação formal – abolição da métrica e das rimas, linguagem substantiva, simples e direta, com poucas metáforas e um ritmo próximo ao da língua falada, que poderia ser comparado às improvisações dos músicos de jazz. A liberdade imaginativa e formal do poeta, porém, não estava dissociada do apurado trabalho artístico com as palavras, perceptível no uso das aliterações, assonâncias, anáforas e outras figuras de linguagem, bem como na utilização do paralelismo, da enumeração caótica e do vibrante tom oratório, que Paulo Leminski compara aos sermões dos pastores quakers, religião professada pela família do poeta (sendo ele próprio um livre pensador, na melhor tradição intelectual norte-americana).

Por sua radicalidade inventiva e tom libertário, a obra não foi bem recebido na época, sendo considerada “indecente”, e custou ao poeta a demissão de seu emprego como funcionário do Departamento do Interior. Apesar disso, a obra foi saudada por Ralph Waldo Emerson como “a mais extraordinária obra de engenho e sabedoria que a América já produziu”. Já no século XX, um dos mais importantes críticos literários norte-americanos, Harold Bloom, escreveu: “O que Shakespeare foi para a Renascença, Whitman foi para o século 19 e depois”. Os últimos anos de vida do poeta foram marcados pela pobreza, atenuada pela ajuda de amigos e admiradores. Em 1884, o poeta conseguiu, a duras penas, adquirir uma casa em New Jersey. Quatro anos depois, sofreu um ataque de paralisia. Whitman morreu no dia 26 de março de 1892 e foi sepultado em Camden, New Jersey. Sua influência na poesia é enorme – está presente em autores tão diferentes entre si como Fernando Pessoa, Ezra Pound, Maiakovski e Allen Ginsberg, todos eles encantados pela liberdade formal trazida pelo autor norte-americano, que pode ser considerado um épico moderno.

Para finalizarmos o presente artigo, citaremos mais um poema de Whitman, intitulado Certa vez numa cidade, traduzido – assim como os demais poemas citados aqui – por Geir Campos, em sua antologia Folhas da Relva (São Paulo: Brasiliense, 1983).

Certa vez passei por uma populosa cidade
guardando no meu cérebro impressões para uso futuro,
com suas mostras, sua arquitetura, costumes e tradições,
embora dessa cidade agora eu recorde apenas
uma mulher que encontrei por acaso,
que me deteve por amor de mim,
dia a dia e noite por noite juntos estivemos –
tudo mais foi há muito tempo esquecido por mim,
garanto que só me lembro dessa mulher
que se prendeu apaixonadamente a mim,
de novo caminhamos, nos amamos, nos separamos
de novo, de novo ela me pega pela mão,
não preciso ir-me embora,
vejo-a bem perto a meu lado com silenciosos lábios
tristes e trêmulos.

No poema original, Whitman escreveu “embora dessa cidade agora eu recorde apenas / um homem que encontrei por acaso, / que me deteve por amor de mim”, mas o editor, orientado pela moral puritana da época, substituiu a palavra “homem” por “mulher”. Um ato de censura e de intolerância que nos faz lembrar da atual situação do Brasil, que vive a emergência de uma onda reacionária que elegeu como alvos preferenciais os setores mais pobres da população, as mulheres, os negros, os homoafetivos, os artistas, os professores e os intelectuais. No contexto político brasileiro – e mesmo internacional, se lembrarmos das recentes vitórias da extrema-direita nos Estados Unidos e em países europeus – a poesia de Whitman é de gritante atualidade.


Por Claudio Daniel, Poeta, tradutor e ensaísta, formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, com mestrado e doutorado em Literatura Portuguesa pela USP, além de pós-doutor em Teoria Literária pela UFMG  |  Texto em português do Brasil