Goticismo, Simbolismo, escolas e movimentos literários

 

Por Fábio Conatus *

Nas expressões “Literatura Brasileira” e “Literatura Oitocentista”, o uso da palavra “literatura” é em sentido estrito.  Os dois usos são corriqueiros. Diferentemente, [a] em “literatura de cordel” se usa a palavra em sentido amplo para se referir a um gênero e [b] em “literatura gótica” se a usa para referir tanto a um gênero como a uma escola.

Entende-se por escola um grupo de pessoas afins que exerce uma atividade intelectual com um objetivo comum. Aplicada a definição no campo das Letras, tem-se que uma escola literária é um grupo de literatos afins historicamente importantes criadores e (ou) promotores de um movimento literário. As ideias de escola e de movimento estão interligadas.  Um movimento, identificado pelo sufiixo “ismo”, pode consistir na ação duma escola no sentido de atingir um objetivo.  O grupo pode durar mais de uma geração, mas todos chegam a um fim porque um ideal diferente passa a predominar. Isso se dá em todos os campos. O fato de se escrever até hoje sobre a Indústria Cultural não significa que a Escola de Frankfurt ainda exista: ela foi formada por um grupo importante de filósofos constituidores de um movimento filosófico e é assim considerada. Não é porque pensadores isolados ainda sustentem as suas ideias que a escola, em si, contnue a existir como promotora de um movimento predominante na História da Filosofia.

Noutras palavras, um genêro eventualmente criado num movimento  pode continuar a ser empregado individualmente por artistas muito tempo depois de a escola sua criadora – e o movimento a ela associado — ter deixado de existir. Por exemplo, o gênero lírico foi criado por Safos na Grécia Antiga.

Do mesmo modo, o fato de hoje um artista constituir uma obra romântica não faz com que ela integre o Romantismo visto como movimento. Pode-se apenas adjetivar a sua obra de romântica. Tomemos o Goticismo, ou Romantismo Sombrio (Dark Romanticism). Ele existiu na Europa de Byron? A resposta é não. Por quê? Porque o estilo objeto desse movimento romântico ao extremo existiu na Europa, tendo na figura principal Byron, mas não havia uma escola: Byron não integrava um grupo de literatos afins reunidos para atingir um objetivo estético. Quem fez isso foi Poe, depois de inspirado na obra de Byron, nos EUA. Quer dizer, houve uma escola e um movimento nos EUA, chamado de Gothicism ou Dark Romanticism. E um por ele influenciado também em Portugal e no Brasil, países em que se convenciou chamá-lo de Ultra-Romantismo (no caso do Brasil, da dita segunda geração romântica). Mas na Europa havia literatos que não se reuniram por afinidade para constituir uma escola, um movimento.  Daí que na Literatura Inglesa não se fala em Goticismo, mas sim em Gothic Novel, um gênero, “Romances góticos”, apenas.

Veja este trecho de “A Literatura Inglesa”, de Anthony Burgess:

“Romances góticos [é o título do capítulo — e não “Goticismo”] Surgiram 
romances de ‘mistério e imaginação’ de escritores como Ann Radcliffe (1764-1822) e Matthew Gregory Lewis (1775-1818) que seguiam o exemplo criado 

em 1764 por O Castelo de Otranto de Horace Walpole (1717-1791). (…) Devemos mencionar nesse contexto uma obra produzida bem mais tarde – Frankenstein, de Mary Shelley (1797-1851). Foi escrita durante um verão chuvoso na Suíça, enquanto seu marido (o poeta) e Lord Byron se divertiam escrevendo histórias de fantasmas e lhe pediram para que ela escrevesse uma também.(…)” (grifou-se)

Percebe [v. grifos] a inexistência na Inglaterra de um grupo de literatos afins reunidos para atingir um objetivo comum?

Por isso é que só cabe falar em Goticismo ou em Romantismo Sombrio nos EUA. E em Ultra-Romantismo em Portugal e no Brasil.  Quando tiver tempo, vou pesquisar para descobrir se na França houve apenas o gênero gótico ou se ele foi objeto de um movimento, um “ismo”.

O gótico é subgênero do gênero romântico, criado numa escola inserida na escola romântica. Quer dizer, o grupo goticista é um subgrupo do grupo romanticista. Tivemos escolas românticas brasileiras, aquelas três fases ou gerações do Romantismo no Brasil. Na segunda geração, estuda-se o goticismo de Álvaro de Azevedo e, no máximo, Junqueira Freire e Casimiro de Abreu. Não se fala em Laurindo Rabelo. Pois bem, esses quatro autores são adeptos do Goticismo (Gothicism) ou Romantismo Sombrio (Dark Romanticism), um subgênero do gênero romântico caracterizado pelo uso de imagens do mal.

Havia um grupo de literatos que constituiu um movimento estético com um objetivo comum. Alguns deles até políticos, como o da primeira escola romântica brasileira.

No Brasil — incluídas as páginas da Wikipedia em Português sobre assuntos a este conexos –, costuma-se incluir sob o guarda-chuvas “literatura gótica”, sem qualquer critério, o gênero cultivado pelo Movimento Simbolista, ou Simbolismo (Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimarães) porque também contém elementos estéticos sombrios. Isso, por si só, fá-lo classificável no gênero gótico? Do ponto de vista da Teoria da Literatura, não. Por esse critério simplista, até Harry Potter seria classificável como romance gótico.  Pode ser bom pra fazer blogues apressados e fan-pages no Facebook sem maiores critérios, mas tecnicamente está errado.

Um período literário é aquele em que predominou um gênero literário.  Essa predominância de um determinado gênero se dava por força de um movimento gerado por uma escola que criou o gênero ou estilo.  E há os subgêneros. O estilo gótico é um subgênero do estilo romântico. A escola um dia termina, e com ela o movimento que faz predominante esse gênero. Mas o gênero continua a ser empregado por autores que a ele se afeiçoam até os dias de hoje. Apenas deixa de ser predominante — quando advém com força o surgimento de um novo gênero criado por uma outra escola.

“Romantismo” é uma palavra que dá por si só esse sentido temporal de “período”. Com ensina Erich Auerbach, “o Romantismo é uma revolta contra a predominância do gosto clássico francês na Europa”.

Continua Auerbach:

“redescobriram também a Idade Média, que a estética do classicismo francês desprezava como bárbara. Esse movimento, chamado em sua primeira fase de Sturm und Drang [tempestade e ímpeto] desenvolveu-se na Alemanha a partir de 1770”.

Ora, nada mais datado.

Assim, a expressão “Literatura Romântica” (com iniciais maiúsculas) faz desnecessário usar algo como “período romântico da literatura ocidental”.  É importante notar que, diferentemente do Goticismo e do Simbolismo, foi um movimento não apenas literário, mas também um filosófico, cultural em geral e ideológico; de modo que “Romantismo”, apenas, não basta para designar o movimento literário em qualquer contexto.

Alías, o mesmo vale para “Goticismo”. Pela primeira vez, essa palavra foi usada para designar um movimento etnocêntrico sueco nos séculos XVI e XVII. O adjetivo “gótico” vem de Gotas, povo da região da Suécia de onde teria saído, segundo uma tese não consensual, o povo germano godo em sua migração pela Europa meridional antes de ocupar Roma. Quer dizer, os visigodos e ostrogodos, pelo menos para efeito de etimologia, são descedentes dos suecos primtivos.

Quando se fala em “literatura gótica”, refere-se à escola gótica, pois “Literatura Gótica”, empregando-se a palavra no sentido estrito, só pode se referir a uma eventualmente existente literatura oral do povo godo. Se houve literatura na sociedade dos godos, ela foi [a] oral porque esse povo não deixou literatura escrita, [b] constituída por poemas porque não havia ainda prosa mesmo entre os gregos (as literaturas orais são versos para facilitar a memorização pelos contadores ou cantadores que as transmite), e [c] épica porque essa era a finalidade dos textos literários entre povos culturalmente não sofisticados como o eram os godos. Falar, portanto, em “Literatura Gótica”, com iniciais maiúsculas, para se referir ao gênero gótico oitocentista é algo tecnicamente errado, embora muito usado em websites na Internet até sérios. É que geralmente são sites dedicados ao gênero e aí se usam maiúsculas para exaltá-lo. O que se pode é falar em literatura gótica, com iniciais minúsculas, como se faz na escrita acadêmica correta e se se fizar a devida contextualização, para se referir ao gênero literário.

A importância que se dá ao gênero gótico no exterior é a mesma que a ele se dá no Brasil. É um gênero tão falado quanto qualquer outro gênero datado não tão importante do ponto de vista Histórico. O gênero simbolista é bem mais importante.

Na Subcultura Gótica se fala em “Old School”. Por que o “old”? O adjetivo sinaliza que, conquanto ainda haja artistas que adotem esse estilo, está no passado o momento em que um grupo grande e importante de artistas o adotou e com isso constituiu, formalmente ou não, o que se chama de “movimento” – movimento estético predominantemente musical, no caso.  Quer dizer, se há uma escola estética, há necessariamente um gênero criado no movimento estético por ela fundado. Mas a recíproca não é verdadeira. Um gênero ou estilo coletivo pode surgir de modo desordenado, não orientado por um grupo de pessoas com um objetivo comum, mas sim a partir de uma criação individual que influencia um segundo artista, que por sua vez influencia um terceiro e assim por diante até que surge um público para esse estilo e para atendê-lo se promovem eventos. Tal como se deu com o surgimento do gênero musical conhecido “gothic rock”.

As consultas para fazer esse comentário me fizeram refletir e mudar um pouco a minha visão sobre o emprego da palavra expressão “movimento gótico”.

Em sentido estrito, houve um sem dúvida movimento punk porque havia um objetivo estético – criar um gênero musical simples e fácil, em oposição ao virtuoso rock progressivo — e político comum. Quer dizer, o punk foi, e é, um movimento tanto estético como político.  Até hoje eu julgava que o goticismo contemporâneo é um movimento exclusivamente estético. Mas o movimento musical gótico não surgiu na Inglaterra partir de um objetivo estético a ser atingido em contraposição a um anterior.  O seu surgimento se deu de modo desordenado, sem um objetivo estético — tal como o gênero gótico na Inglaterra de Byron –, e só cabe falar em movimento gótico se se considerar que esse movimento é lúdico, e não estético, na medida em que o objetivo comum ao seus integrantes existente é apreciar a estética, e não defender o seus cânones. Por isso há tantos subgêneros sob o gênero “sombrio” (Dark, Schwarze) na dita subcultura gótica. Não há uma ideologia estética que estabeleça cânones. Os subgêneros vão surgindo naturalmente e convivendo com os anteriormente existentes, tendo por eixo a estetização de formas sombrias.

Por isso é que me estranheza essa preocupação em estabelecer cânones num movimento mas lúdico que estético, que por isso mesmo tem como suas características a tolerância, a liberdade, a diversidade.

O conhecimento científico se caracteriza pelo progressismo, pela observação e descrição dos fenômenos naturais ou humanos. Só tecnicamente cabe falar em certo ou errado, em prescrição ou normatização, pois a técnica é uma mera prática, uma mera convenção para produzir resultados conforme um modelo estabelecido.

No campo da cognição, diferentemente, dizer que algo é certo ou errado não tem propósito. Questionam-se os paradigmas em favor da evolução num plano mais elevado de trabalho intelectual em que não cabe ser prescritivo, normativo, sob pena de ser doutrinário.

Daí que não há nada de “errado” no surgimento no tecido social do uso de “goticismo” para se referir ao movimento estético contemporâneo surgido ao redor do movimento musical cultor do estilo coletivo denominado de Gothic Rock. As línguas, objeto da Linguística, e portanto os sentidos das palavras, evoluem conforme as funções novas do discurso que vão surgindo com a evolução mesma das sociedades e de seus novos objetos — concretos ou abstratos — a serem identificados por novas palavras. Essas funções são o objeto da relativamente jovem disciplina denominada de “Estudos Culturais” no plano internacional.

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* Fábio Conatus é bacharelando em Letras – Inglês na Universidade de Brasília (UnB)