Bacurau — O poder da alteridade e da organização social

O poder da alteridade e da organização social

Por Teresinha Azevedo

Dentre as muitas conversas, reflexões, trocas e, especialmente, transformações que “Bacurau” pode ajudar a promover, limito-me às duas anunciadas no título deste post.
Numa comunidade sofrida, oprimida e destratada – como todos nós brasileiros, desde sempre humilhados e machucados por colonizadores e escravocratas – a força de fato emerge do povo. De qual povo? Aquele que respeita suas putas, seus não-binários, seus professores, seus velhos, suas crianças, seus bandidos, suas donas-de-casa, seus médicos, seus cantadores, suas mulheres e seus homens, suas bruxas e bruxos, suas etnias, escolhas e opções de vida. De qual povo? Aquele que acolhe sua memória e dela faz sua força, dela retira e mantém visão crítica e atitude desperta para com o opressor: o colonizador, o mentiroso, o aproveitador, o incansável capitalista eternamente à espreita. De qual povo? Aquele que se atualiza, que acompanha os fatos e deles retira mais força, mais vigor, mais fôlego, mais estratégias de sobrevivência. De qual povo? Aquele que pode fazer uso das tecnologias de forma inteligente, consciente, certeira, política, estratégica, desmitificada. De qual povo? Todo ele: o sertanejo, o pobre, o alijado, os expostos, os vulneráveis, os marcados como periféricos da História. Os diferentes dos manequins de vitrines. Os anônimos que esculhambam estéticas alisadas por marketings evangélicos e empresariais.
Não à tôa, é sobre esse povo que se despejam controles educacionais, perversos sistemas de saúde pública, produções audiovisuais moralizadoras, palavras de ordem contra todos os que com ele – povo – se assemelham. É sobre esse povo que se apregoam palavras de ordem e retrocesso, campanhas nazi-fascistas no campo de guerra da Pátria Amada Brasil. É para ele que se dirigem as permissões para matar, as supostas piadas de classe, gênero e etnia, o enaltecimento da moral de uma burguesia bobinha, caladinha, espertinha, alienadinha. Burra e matadora. Assassina, sim, mas cega às armadilhas construídas por seus aclamados exterminadores.
Bacurau é uma homenagem ao povo brasileiro e é, sobretudo, um recado: na força da organização social baseada na alteridade está nosso sustento, nossa dignidade, nosso grande poder.
Vamos ao cinema, Brasil! Vamos ao Brasil, cinema!

A partir da esquerda, os diretores Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, e os atores Udo Kier e Bárbara Colen, na apresentação de ‘Bacurau’