Teoria da moda pra quê?

O mundo fashion contém signos que espelham lugares, sociedades e épocas

Fonte: página do jornal Zero Hora

Desde a virada do século 19 para o 20, cientistas sociais se voltaram ao tema da moda a fim de melhor compreender a sociedade em que viviam, pensavam e produziam. Seja pelo âmbito das instituições, como o sociólogo americano de ascendência norueguesa Thorstein Veblen (A Teoria da Classe Ociosa, de 1899, com um capítulo intitulado A Roupa como Expressão da Cultura Pecuniária), seja através de uma esfera “micro” do estudo da sociologia, como na obra do judeu-alemão Georg Simmel, de 1904 (A Filosofia da Moda), esses dois pensadores concentraram parte de seus estudos na análise da moda como representativa do momento e da sociedade em que estavam inseridos.

Nos dois textos, que ajudam a compor o conjunto de obras fundadoras da moderna sociologia, o indivíduo interage com a sociedade em que vive de acordo com normas de conduta social datadas, claramente. Mas o que permanece atual em ambos é a justificativa em se utilizar da moda como termômetro social e mesmo como parâmetro para a análise de uma sociedade inteira: ela gera distinção social (como depois reafirmaria Pierre Bourdieu, no também já clássico A Distinção, de 1979); comunica o pertencimento a uma classe – ou instituição, no caso de Veblen – e cria identidades sociais e culturais (sem falar nas sexuais, o que só será abordado mais tarde pelas teorias de gênero, e na literatura dos anos 1920, por Virginia Woolf).

Além do interesse pela moda e de ter como campo de trabalho a sociologia, o que une os dois autores é o seu deslocamento acadêmico: atuando em campos pioneiros, os dois se viram presos às regras internas da carreira universitária da época, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Veblen, depois de doutorado em Yale, teve de se matricular novamente na universidade a fim de continuar atuante, para aí sim ser “descoberto” e convidado a integrar o departamento de Economia da Universidade de Chicago. Simmel, por sua vez, vindo de uma família numerosa e empobrecida, estudando temas “excêntricos” à época, teve de esperar a chegada da herança de um parente distante para poder se dedicar à vida acadêmica. O estudo de “frivolidades” como a moda , o amor e o dinheiro cobrava seu preço.

E se ainda no século 19 francês, o poeta simbolista Sthéphane Mallarmé editava uma gazette intitulada La Dérniere Mode, o dandy Oscar Wilde não deixava de refletir sobre a moda e o papel das aparências em sua obra poética em plena Inglaterra vitoriana. Os anos 1920 londrinos seriam a hora e a vez de Virginia Woolf refletir sobre o papel da mulher na literatura (Um Teto Todo Seu, 1928), mas também de pensar o papel da moda na formação de personas sexuais (Orlando, 1928), quando diz: “(…) são as roupas que nos usam e não nós que usamos as roupas; podemos fazê-las tomar o molde do braço ou do peito; elas, porém, modelam nossos corações, nosso cérebro, nossa língua, à sua vontade”.

No Brasil de Gilberto Freyre, a moda também encontrou sua voz, embora só em 2009 isso tenha sido reconhecido mais amplamente com a reedição de seu livro sobre o tema. O sociólogo pernambucano, autor de clássicos nacionais como Casa Grande e Senzala (1933), não deixou de perceber como a moda de então influenciava a sociedade analisada por ele. Para Freyre, em Modos de Homem, Modas de Mulher (publicado pela primeira vez em 1987) o que está em jogo é sempre uma apropriação histórica, antropológica e social que acaba por fundar uma nova concepção de sexualidade no Brasil, embora parta de aspectos funcionais da moda. A dialética entre os modelos moreno e europeu na beleza brasileira, por exemplo, longe da ideia anterior de eugenia sugere o debate entre o apolíneo e o dionisíaco na cultura brasileira, como uma simbiose só possível em uma sociedade com esse grau de miscigenação.

Nos anos 1960, em plena explosão do prêt-à-porter na indústria da moda, eis que o já renomado filósofo, semiólogo e linguista Roland Barthes resolve pôr suas manguinhas de fora. E o resultado de sua incursão pelo mundo fashion (porque agora o termo já existe) é um livro de análise estrutural e mesmo extenuante do código do vestir, O Sistema da Moda, e, mais importante, um conjunto de ensaios, publicados na imprensa francesa, em entrevistas e outros artigos reunidos no Brasil sob o título de Inéditos: Imagem e Moda (2005). Nesses ensaios, além da querela entre “antigos e modernos” na moda – vide o artigo O Duelo Chanel Courreges –, Barthes dá a sua grande contribuição à teoria da moda: mais do que proteger, adornar ou fugir de ter as “vergonhas” expostas, a roupa é responsável por criar significação. O grande papel da roupa, para Barthes, é a criação não apenas de identidades sociais, mas de algo que significa, dá valor, voz, presença imediata ao sujeito que a veste. Tal como a linguagem oral e escrita, a roupa e a moda também comunicam, e o que elas comunicam faz parte dessa identidade em processo.

No panorama dos anos 1980, 1990 e 2000, a moda voltou à tônica do ponto de vista teórico. Além do trabalho já citado de Bourdieu, não específico, mas que toca em questões caras ao campo (gosto, distinção), os últimos anos do século 20 e os iniciais do 21 nos brindaram com a reflexão de filósofos e cientistas sociais como Gilles Lipovetsky – com seu Império do Efêmero, de 1987 – e Michel Maffesolli – com No Fundo das Aparências, de 1990.

Os anos 2000 continuam profícuos nessa produção. A socióloga americana Diana Crane, por exemplo, através de seu trabalho de formato inédito quanto à pesquisa (A Moda e seu Papel Social, 2000) desmente a prerrogativa de Veblen de que a moda era terreno exclusivo da classe ociosa. Analisando dados demográficos e diversos aportes documentais, Crane demonstra como as classes trabalhadoras na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos do século 19 eram criadoras e propagadoras de uma moda própria que as identificava social e culturalmente independentemente das classes abastadas. Diana Crane mostra que a ideia da cópia de uma moda de “cima para baixo” nem sempre é verdadeira e que as classes laboriosas também sabiam criar e mesmo protestar através da roupa.

Hoje é possível acessar sites como o da editora inglesa Berg para se ter ideia de um catálogo que não para de crescer quando o assunto é teoria da moda (dois títulos publicados no final de 2009: Fashion – The Key Concepts e When Clothes Become Fashion), sem falar das dissertações e teses sobre o tema que abundam em programas de pós-graduação de diferentes áreas no Brasil e no mundo: moda, comunicação, antropologia, história, letras.

Como podemos ver, o fenômeno teórico da moda não só está disseminado por diferentes áreas, mas também por continentes – uma análise das edições da principal revista acadêmica da área, Fashion Theory, permite perceber o desenvolvimento da produção, consumo e reflexão em lugares ainda mais excêntricos do ponto de vista tradicional, como Austrália, países africanos, China, entre outros – e é acompanhado por indústria, mercados e interesses que crescem dia a dia. O que dizer de eventos, como os nacionais São Paulo Fashion Week, em termos centrais, e Donna Fashion Iguatemi, em termos locais, que cada vez menos deixam a desejar em relação às semanas internacionais?

A moda está em todos os lugares: em quem a veste, em que acha que não a veste, nas lojas, nas revistas, na TV. E até em nossas mentes. Como fenômeno aprofundado da modernidade – esticada da virada do século 19 para o 20, como faz o historiador da arte Peter Gay – até os nossos dias, veremos que não há como escapar dessa reflexão. A moda como instituição veio para ficar, por mais efêmera que possa ser. Parodiando Coco Chanel, as modas passam, a moda permanece.