Os empregos da palavra “gótico” como adjetivo e como denominação (ou “rótulo”) de um estilo.

Por Fábio Conatus

Embora se possa falar em estilo artístico gótico, o emprego do adjetivo como forma de denominação de categoria de pessoas é sempre inapropriado, por sempre incompleto diante da heterogeneidade do meio. Esta decorre, por seu turno, da diversidade das espécies do gênero que se pode assim adjetivar.

Quando simples a definição, possível é a classificação simplista ou rotulação. Simplista, mas necessária como ferramenta de agregação de objetos com um ou mais determinados traços comuns.

Porém, é dificílimo, senão impossível, definir o adjetivo gótico a partir do seu emprego, quer no passado quer no presente.

Acerca do seu primeiro emprego para dar nome a uma estética, eis o que consta da  inigualável (segundo o saudoso jornalista cultural Dainel Piza) enciclopédia Britannia 1911:

GÓTICO, o termo geralmente aplicado à arquitetura medieval, e mais especificamente àquela em que o arco ogival é empregado.  Supôs-se no passado que o estilo teria sido originado dos guerreiros conhecidos como Góticos, alguns dos quais (os Godos do Leste, ou Ostrogodos) se estabeleceram na parte leste da Europa, e outros (os Godos do Oeste, ou Visigodos) na atual região das Astúrias – Espanha; mas como nunca se acharam construções ou resquícios de descrições destas, em que houvesse indícios de uma construção independente em alvenaria ou pedra, a denominação está equivocada; desde então, contudo, ela é agora tão largamente aceita que seria difícil a mudar.  O termos foi empregado pela primeira vez como uma forma de reprovação, quando Evelyn (1702) se referindo à construção indefectível (ou seja, clássica), afirma que ela foi demolida pelos Góticos ou Vândalos, que introduziram seu estilo licencioso agora denominado moderno ou Gótico.  O emprego do arco ogival na Síria, Egito e Sicília, do século oitavo para adiante pelos maometanos em suas mesquitas e portais, cerca de quatro séculos antes de ele surgir na Europa, também lhe faz mais convenientemente aplicável o antigo temo ‘gótico’ à expressão Arquitetura Pontiaguda. (v. Arquitetura)”

Parte to texto original:

“..the title is misleading; since, however, it is now so generally
accepted it would be difficult to change it. The term when first
employed was one of reproach, as Evelyn (1702) when speaking of the faultless building (i.e. classic) says, they were demolished by the
Goths or Vandals, who introduced their own licentious style now
called modern or Gothic
. The employment of the pointed arch in Syria,
Egypt and Sicily, from the 8th century onwards by the Mahommedans for
their mosques and gateways, some four centuries before it made its
appearance in Europe, also makes it advisable to adhere to the old…”

J.S. Bach, era chamado de “o gótico”; o expressionismo alemão é gótico; as catedrais  francesas do séc. XII a XIV são góticas; o medievalismo é tido por gótico; o simbolismo, na literatura e na pintura, é gótico; Joy Division e Bauhaus eram bandas góticas como a atual London After Midnight (rotulada de neo-gótica), mas Lacuna Coil (Gothic Metal), Anathema (Doom), L´Âme Immortelle (EBM), Cyborg Attack (dark electro); Cocteau Twins (Ethereal); também o são; Giotto fazia pintura gótica medieval; Bosh pintura gótica internacional e
Dürer pintura gótica tardia sententrional (alemã); Rodin fazia esculturas expressionistas, portanto góticas; Tim Burton faz filmes góticos; Stravinsky fazia música expressionista, portanto gótica; Wagner, óperas góticas;Goethe, Wagner, Fernando Pessoa, Florbela  Espanca, Edith Piaf, Poe; Lasar Segall, Cruz e Sousa, Alexandre Herculano…

A lista é infindável.

O que há de comum em tudo isso que possibilite uma definição fechada para o adjetivo “gótico”? Ainda que não seja de importância fundamental, por mera curiosidade intelectual não desisti de buscar esse elemento comum.

Para dificultar ainda mais, boa parte dos cultores do estilo gótico também cultuam o existencialismo, forma de ver o mundo que não admite essências. E definir algo é justamente dizer quais são as características essenciais ou integrantes(ex: quatro rodas de um carro, motor), disguindo-as das complementares (volante, bancos) e das acessórias (CD player).

Ante a impossibilidade da adjetivação correta, e mais, ante o fato de que são raros os que curtem ao mesmo tempo o goticismo em todas estas diferentes formas de expressão artística, como enumerar os gostos e os comportamentos de alguém para o fim de dizê-lo gótico ou não?

Pode-se dizer que se é metaleiro sem hesitar. Pois metaleiro é quem curte rock pesado e ponto final, independentemente do que mais a pessoa curta. O mesmo vale para pagodeiro, sambista.

Para dizer-se punk, já é preciso preencher um número maior de requisitos, mas há como precisar quais são as características esperadas para que caiba a classificação numa categoria de pessoas. O mesmo vale, talvez, para os cultores do estilo musical chamado de Black Metal (parece-me que há uma ideologia anticristã, e não só a música) e para os seguidores de religiões, ideários políticos e outras mais coisas.

Mas não é adequado dizer-se gótico porque inexiste uma relação de caracterísiticas, gostos, comportamentos, ideais a serem verficados em si mesmo para se chegar à conclusão de que se é gótico ou não.

Rotular, segundo o Aurélião, é classificar de modo simplista. Diante da complexidade de que falei, qualquer tentantiva de, tratando-se de pessoas, definir o que é “ser gótico” consistirá numa simplificação; portanto, numa rotulação.

O mesmo não vale, por exemplo, para definir o que é ser punk, ser católico, umbandista, engenheiro, comunista, capitalista… A classificação – mais ou menos complexa – é possível sem que se tenha de recorrer a uma simplificação. Neste caso, portanto, não se está
rotulando, mas sim classificando apropriadamente de modo mais ou menos preciso.

Mas talvez um dia algum filósofo da arte ou da linguagem – se houver algum que se dedique ao tema – supere essa complexidade e levante critérios que façam classificação apropriada o que hoje, por falta de elementos, não passa de rotulação.