Bruxas: novos ícones feministas

Fonte: France Inter
Por Guilia Foïs
Tradução por Fábio Conatus

Perseguidas no passado, hoje são bem-vistas pelos movimentos feministas.

As bruxas se tornam ícones feministas: aqui, uma demonstração de mulheres vestidas de bruxa para o Dia da Mulher na Coréia do Sul em Seul © Getty / Chung Sung-Jun

Serão elas feias e curvadas, com uma verruga no nariz, boca sem dentes e uma pele suja, enrugada? Ou terão uma pele lisa,  seios e coxas generosos, lábios rosados, roupas ousadas e cabelos ardentes? — sim, ruivas?!

De qualquer forma, elas baterão à sua porta e o que penetrarão é a sua imaginação desde o início. Elas vão procurar e provocar memórias de sua infância, vão macular sua inocência… Por que quem é essa bruxa? Afora um fantasma mortal, encarnação de tentação, vício, Satanás e o mal, aquela que rouba todos os seus costumes, que tira você do caminho certo no sentido de ser o príncipe encantado… Isso não é bom … E vem de muito, muito longe …

Desde o final da Idade Média, elas foram perseguidas, presas, torturadas e depois estupradas, esquartejadas e finalmente queimadas na fogueira em público. Ainda as ouvimos a gritar. Todas as mulheres que mostraram uma ligeira independência e todas as que possuíam conhecimento — as curandeiras, as abortistas, as parteiras — tornaram-se capangas do demônio. Na base da acusação havia má reputação suficiente. Por dois séculos, mataram-se todas aquelas chamadas de bruxas. Contam-se 50.000, talvez 100.000 massacradas. Como essa era a vontade de Igreja, as pessoas aplaudiam. Organizada, pensada, tratava-se de uma violência sistêmica: um “feminicídio”, não fosse o termo anacrônico.  Alimentadas por um ódio antigo e um medo contido, as mulheres, por sua vez, preparam as fogueiras e ateiam foto ao terreno fértil da misoginia: aquelas que viram essas mulheres a queimar receberam a mensagem: “Abaixe a cabeça e olhe para os pés. Quer paz? Submeta-se.”

Mas os tempos estão mudando e as bruxas estão começando a fazer manifestações  novamente.

Você pode ter visto essas manifestações nas ruas de Nova York, ao lado de Wall Street. Ativistas feministas, chapéu pontudo, rostos sombrios… Elas prometem a queda da bolsa ou lançam feitiços a Donald Trump… De fato, desde a segunda onda feminista, a bruxa é um estandarte para ativistas e sua história de tormento é o resultado da violência milenar contra as mulheres. A fogueira representa a brutalidade do patriarcado. A vassoura, uma arma de emancipação que, entre as pernas, torna-se fálica e instrumento através do qual as mulheres desafiam o espaço e o tempo. Graças a ele, elas controlam seu corpo.  A liberdade de movimento então conquistada é aquela que lhes permite escapar da prisão que é sua casa, da autoridade do marido sob a tutela de uma sociedade que preferiria trancá-las. Esse diabo com quem elas são acusados ​​de dormir diz que elas pegam no pé, e a sua risada – oh meu Deus, essa risada – que ouvimos entre dois suspiros, é o poder da alegria deles, é isso eles foram forçados a pagar por tê-las arrastado para a fogueira. É isso que vem reivindicar quem se veste de bruxa. “Conservadorismo, vassoura” seu slogan, é bem formulado.

Não é coincidência a publicação deste manifesto no domingo. Publicado pelo jornal Le Soir, na Bélgica, circulou nos Estados Unidos, na Austrália, na Índia, na Espanha, no Canadá, em todos os lugares. Assinado por uma centena de ativistas feministas, políticos, artistas franceses.

NÓS NOS DECLARAMOS FILHAS ESPIRITUAIS DAS BRUXAS, LIVRES E INSTRUÍDAS. IRMÃS DE TODaS AS QUE HOJE, POR SEREM MULHERES, ARRISCAM-SE A SER VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA E DE ASSASSINATO. BRUXAS DE ONTEM, BRUXAS DE HOJE.

Bruxas, elas o são pelo poder que receberam desde o movimento #MeToo. Todos essas fantasmas que as sacodem, todas essas ameaças que lhes são brandidas. Esse bom e velho medo de que provocariam, num encantamento, o fim da raça humana, o desaparecimento do gênero masculino numa chuva torrencial de testículos no chão. Medo de que, um a um, fossem os homens cassados e castrados pelo simples fato de que essas mulheres, essas bruxas, ousassem sair da floresta, de seu covil, para pedir um mínimo de independência e liberdade.

E na Cultura?

Eis o fantasma que foi acordado. Mona Chollet foi quem demonstrou isso tão bem em seu implacável ensaio Sorcières, o poder não conquistado das mulheres.  Seis meses depois de seu lançamento, o livro vendeu 115.000 cópias. O último ensaio de Eric Zemmour, French Destiny, lançado ao mesmo tempo, chegou a 96.000. Ironia dos números, ironia do feitiço contra quem tanto teme por sua testosterona, ele deve gritar até a morte.

A ironia dos números é que hoje, nas bilheterias americanas, as Bruxas do Mal acabaram de derrotar o Coringa. Vitória por nocaute na tela, super heroínas contra super heteros: estariam os ventos  mudando? Mas oh, olhe pela janela: Uma bruxa dançando.