Ian Curtis e o novo sentido dado por Martin Hannett ao adjetivo “gótico”

Por Fábio Conatus

Consta da página dedicada ao grupo Joy Division na Wikipédia [não recomedo as editadas em português, mal sistematizadas  e continentes de conclusões pessoais decorrentes de análises frágeis muito distantes de um consenso] que

“The band’s dark and gloomy sound, which Martin Hannett described in 1979 as ‘dancing music with Gothic overtones’, presaged the gothic rock genre. While the term ‘gothic’ originally described a ‘doomy atmosphere’ in music of the late 1970s, the term was soon applied to specific bands like Bauhaus that followed in Joy Division’s wake. [67]

A afirmação, de acordo com nota de rodapé n. 67 da página, seria do crítico musical Simon_Reynolds . Da nota não consta em que livro ou periódico Reynolds teria feito a afirmação.

Há poucos anos se lia mediante pesquisas na rede mundial apenas que Tony Wilson aplicou pela primeira vez o termo numa de suas apresentações na BBC em 1979.  Uma das fontes que consultei em 2002 fez atualização de sua página:  acrescentou o dado sobre a afirmação de Hannett e teceu considerações mais aprofundadas a respeito.  Trata-se do autor da página Origins of  the Therm Goth.

Como se vê no filme Control — pautado no livro Touching from a Distance, de Deborah Curtis — e em documentário recente [de cujo nome não nos lembramos para anotar aqui um vínculo] sobre Curtis e a banda, o apresentador e empresário Tony Wilson manteve por um bom tempo contato estreito com os integrantes no processo de os promover.  Mas  Martin Hannett produziu Unknown Pleasures e e portanto é bastante crível que tenha sido mesmo o autor da adjetivação.  Talvez Wilson a tenha adotado publicamente em apresentação da banda depois ouvi-la de Hannett e talvez por isso tenham se tenha atribuído equivocadamente em sítios diversos a sua autoria ao primeiro. Questão de saber quais fontes são as mais confiáveis, mas fico com a impressão de que assim aconteceu.

O adjetivo gótico prosperou na incipiente cena musical surgida ao redor da bandas como Bahaus e Siouxie and The Banshees e se tornou um rótulo de identificação do estilo musical coletivo por estas adotado; para anos depois se consolidar como chamamento atribuível à subcultura que surgiu da corrente estética musical.

Teria a germanofilia de Curtis e seu impacto sobre o estilo da banda  sido um elemento informador da epifania de Hannett (ou de Wilson) em que lhe ocorreu o termo “gótico”?

A resposta me parece positiva e permite dar ao rótulo novos – e adequados – elementos de sentido. As explicações que vi até hoje tal adjetivação não se mostram satisfatórias.

Sempre me questionei sobre o que eria passado pela cabeça de Martin Hannett (ou de Tony Wilson, pouco importa) ao fazer tal adjetivação.  Quais elementos estéticos teria identificado no trabalho da banda para neles ver  algum nexo com a arte da Alta Idade Média, com o Goticismo, um movimento literário do século XIX, ou com a cultura do godos (um dos muitos povos germanos)?

A resposta, parece-me, é que Hannett teve em mente também a por ele conhecida paixão de Curtis pela gravidade (seriedade, austeridade) da cultura alemã.  Refletida, à evidência, na estética da banda. — no concerntente tanto à  estética musical como ao nome escolhido para o grupo, à capa de seus álbuns e à indumentária invariavelmente sóbria de Curtis (quase sempre roupa social de tons escuros e, quando exposto ao frio, sobretudo sombrio e de estilo antigo [encontramos apenas uma foto na rede em que um sobretudo de corte mais moderno]).

Hannett adjetivou  de gótica, porque grave, a sonoridade da música da banda, mas por força do seu conhecimento das preferências de Curtis para tanto empregou um termo que também remete à sabidamente grave cultura alemã, filha dos povos germanos godos e cujo idioma deriva diretamente extinta língua gótica até hoje usada de modo alternativo por tradição em alguns locais da Alemanha.

Basta comparar as letras, as músicas em sentido estrito e o visual de Curtis com os mesmos elementos de bandas inglesas da época como os Sex Pistols.  O estilo pessoal de Curtis e o estilo da banda eram adjetiváveis de góticos na medida em que incutiam um espírito alemão no âmago do rock inglês. Uma revolução, portanto, esteticamente análoga à dos bárbaros visigodos invasores de Roma ou à dos elementos orientais introduzidos na arquitetura da Alta Idade Média.

Para ponderar sobre a adequabilidade do termo nos limites que tenha ocorrido a Hannett neste breve ensaio pouco importa o uso que lhe tenha dado a imprensa para a se referir às bandas de estilo similar que depois surgiram e mesmo os integrantes da subcultura assim chamada para se referir a si próprios com maior ou menor desconforto pela repercussão estereotipada do rótulo. Estamos a tratar da propriedade do sentido original do adjetivo conforme o supostamente afigurado por Hannet ou Wilson, ambos falecidos. Julgo-o apropriado.

A partir de uma especulação singela sobre possível influência das fotos de Ian Curtis envergando sobretudos sobre a estética  indumentária dos frequentadores da cena musical gótica, descobri mediante pesquisa  em duas fontes diversas (uma delas o Myspace da banda), que “Joy Division’s burgeoning success drew a devoted following nicknamed the ‘Cult With No Name’, who were stereotyped as ‘intense young men dressed in gray overcoats.”

Os “trench coats” (casacos de trincheira, nome dado ao tipo de sobretudo),  tal como o usado por Curtis na foto acima, são peça típica do vestuário alemão usada desde a primeira grande guerra que caiu no gosto dos civis. Um exemplo é esse modelo civil em couro, de 1940:

Fonte: http://www.spinning-wheel.net/prod1924.htm
Fonte: http://www.spinning-wheel.net/prod1924.htm

Por isso, os nazistas também o adotaram em seus uniformes. Atitude compatível com seu discurso nacionalista.

Quer dizer, é peça do vestuário civil alemão da década de 40, quando mesmo tenha origem militar.  Germanofilia não implica neonazismo e a escolha do nome da banda, por si só, não autoriza a conclusão de que a banda se afinize om ideias nazistas — o que eventualmente se poderia mostrar verdadeiro por meio de outros elementos de convecimento.

Na Wikipédia consta o seguinte trecho a respeito das especulações da imprensa sobre o assunto:

Joy Division made their recorded debut on 3 June 1978 when the band self-released their debut EP, An
Ideal for Living
, and two weeks later a track of theirs, “At a Later Date”, was featured on the compilation album Short Circuit: Live at the Electric Circus (which had been recorded live on 2 October 1977).[25][26][27]

In the Melody Maker review of the EP, Chris Brazier said that it “has the familiar rough-hewn nature of home-produced records but they’re no mere drone-vendors—there are a lot of good ideas here, and they could be a very interesting band by now, seven months on”.[28]

The packaging—which featured a drawing of a Hitler Youth member on the cover—coupled with the nature of the band’s name, fueled speculation about their political affiliations.[29]

While Hook and Sumner later admitted to being intrigued by fascism at the time, Morris insisted that the group’s obsession with Nazi imagery came from a desire to keep memories of the sacrifices of their parents and grandparents
during
 World War II alive. He argued that accusations of neo-Nazi sympathies merely provoked the band “to keep on doing it, because that’s the kind of people we are”.[18]