O Tenebrismo e Caravaggio

Salomé com a cabeça do Batista (1607)

Há 400 anos morria um dos maiores mitos da pintura realista de todos os tempos, o italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (8 de julho de 1610). Uma das
simbólicas homenagens que o artista está recebendo é a não menos
realística exposição de seus restos mortais. Na Toscana, colocada sobre
uma almofada de veludo vermelho, dentro de uma urna de cristal, está a
ossada de Caravaggio (fragmentos do crânio, fêmur e coluna). Vista
publicamente pela primeira vez desde que foi comprovada a sua
identificação através de testes de DNA e Carbono 14, os restos desse
magistral pintor estarão expostos durante o mês de julho na cidade que
teria sido o local de sua morte, Porto Ercole.

 

Narciso (1599)

 

Durante séculos, as circunstâncias do desaparecimento de Caravaggio ficaram envoltas em mistério, sendo impossível até então encontrar ou identificar seus restos mortais. Após um ano de investigações, uma
equipe de cientistas relatou em junho de 2009 que havia identificado um
conjunto de ossos, encontrados em uma cripta local, que poderiam ser do
pintor. Silvano Vinceti, presidente do Comitê Nacional para a
Valorização dos Bens Históricos, Culturais e Ambientais, confirmou há
pouco tempo que havia 100% de certeza de que os restos eram mesmo do
artista, comprovação só possível devido aos testes de última geração.
Embora existam cientistas e historiadores que ainda discordem da certeza
do Comitê, a exposição recebe uma romaria de pessoas interessadas em
ver a ossada daquele que, segundo muitos, foi o maior pintor barroco da
Itália.

 

Decapitação de Holofernes (também conhecido como “Judite e Holofernes”) – (1599)

 

Caravaggio surgiu numa época em que a Europa passava pelas agruras da Inquisição. O terror do movimento não deixou que a genialidade do pintor fosse menor, pelo contrário, o artista, um rebelde nato,
despontou no coração da Igreja Católica, Roma, com ideais libertários e
muita energia para perseguir e ser perseguido pelos lideres
eclesiásticos da época, que não poucas vezes consideraram sua obra
indecorosa (não à toa ela ficou “esquecida” por quase três séculos). O
pintor era uma tempestade ambulante, um gênio cuja expressão artística
deixava clara sua oposição à hipocrisia e a moral do seu tempo. Por
outro lado, seu trabalho também jorrava espiritualidade e vertia
sentimentos profundos de grande sentido interior. Sua técnica é até hoje
estudada, e muitos acham que dificilmente haveria um Velásquez, um
Rubens, ou mesmo um Rembrandt sem que antes (ou ao mesmo tempo) não
tivesse havido um Caravaggio.

Milanês, inquieto, antissocial, feio, estrábico, Caravaggio não se casou, não teve filhos e viveu praticamente a vida toda em meio a prostitutas, bandidos, tabernas, álcool e excessos. Comprava roupas
caras e as usava até ficarem velhas, em farrapos, e só aí comprava
outra, não as tirando para trabalhar, dormir ou brigar, e brigava sempre
e muito. O pintor teve muitos problemas com a justiça, que não o
intimidava. “Não sou um pintor valentão, como me chamam, mas sim um
pintor valente, isto é: que sabe pintar bem e imitar bem as coisas
naturais
”, disse Caravaggio perante um tribunal, ocasião de uma de
suas primeiras acusações (perturbar a ordem pública). Duelava com quem
aparecesse à frente e feria seus adversários levemente, gravemente e até
mortalmente. Em maio de 1606, durante um jogo, acusou seu adversário
(Ranuccio Tommasoni de Terni) de ridicularizá-lo e o apunhalou até a
morte. Condenado, o pintor conseguiu fugir de Roma (onde jamais
voltaria) e foi refugiar-se em Nápoles (que não era Itália, pois lá
reinava o rei de Espanha). Tornou-se uma celebridade, e em 1607 foi para
Malta, onde surpreendentemente consegue ser admitido como Cavaleiro da
Ordem dos Hospitalários (braço da Igreja Católica), mas é expulso e
retorna a Nápoles, onde é agredido e deixado às portas da morte
(desconfia-se que por ordem dos mesmos Hospitalários), escapa e segue
para outras regiões e cidades até chegar a Porto Ercole, onde, enfim,
teria morrido.

Considerado o criador do tenebrismo, tipo de pintura que realça as luzes e as sombras, o artista foi e voltou do fundo do poço dezenas de vezes, mas no meio do caminho deixou obras

sublimes como “Judite e Holofernes” (1598), uma
representação da violenta morte do Rei Assírio por Judite (curiosidade:
uma radiografia demonstrou que inicialmente os seios estavam nus, tendo
posteriormente sido cobertos por um pudico véu), ou “Vocação de São
Mateus” (1599-1600), “Martírio de São Mateus” (1599-1600), “Conversão de
São Paulo” (1601), “Degolação de São João Baptista” (1608) (“Il più
grande quadro del secolo
” conforme escreveu Longhi, um famoso
crítico de época), ou ainda “David segurando a cabeça de Golias”
(1609-1610), considerada sua última obra e uma das mais simbólicas. A
tela ilustra o jovem David com tristeza e pena, mas não com uma
expressão de vitória. A cabeça cortada de Golias exibe o rosto de
Caravaggio, que para muitos estudiosos teria sido quase um pedido de
perdão ao Vaticano.

O enterro de Cristo (1602-04)

 

Caravaggio revolucionou a pintura. Introduziu novos tratamentos de luz, com prismas que se decompõem, e geometriza os componentes de um quadro
(lição aproveitada por Rembrandt, Vermeer e levada às últimas
consequências pelo cubismo de Paul Cézanne). Sua arte entrou como uma
epidemia na pintura, sendo seus seguidores até hoje chamados de
“caravaggianistas”. Como um homem de temperamento tão agressivo, com uma
índole tão devastadora podia criar imagens como essas, expostas nos
principais Museus do mundo? Uma pergunta que certamente só os críticos,
biógrafos, terapeutas, ou iguais a ele podem responder. Um personagem
misterioso, que conheceu a glória precocemente, que segundo biógrafos
foi um animal erótico, e segundo outros, um homossexual que retratou a
beleza masculina como poucos conseguiram em seu tempo. Quem poderá saber
com certeza quem foi Caravaggio? Não existem diários, cartas ou outros
documentos escritos por ele, aparecendo em sua documentação biográfica
farta quantidade de atas de julgamentos, termos de acusação e laudas de
condenação. O pintor morreu de malária, aos 38 anos, e morreu pobre,
esquecido e miserável (“foi colocado numa cama, com febre muito forte, e
ali, sem ajuda de Deus ou de amigos morreu depois de alguns dias, tão
miseravelmente quanto viveu”). Como escreveu seu primeiro biógrafo,
Baglione: “Caravaggio morreu mal, como viveu”.

Acompanhe outras obras desse mestre.

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